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A resenha

Midsommar: Quem me vendeu o filme, me deve desculpas


Hora de mais uma resenha de filme, que dessa vez é Midsommar, do diretor Ari Aster. ESSA ANÁLISE NÃO É LIVRE DE SPOILERS! Logo, se você ainda não assistiu o filme e tem essa intenção, dê as costas agora e volte em outro momento.

Antes de mais nada quero deixar duas coisas bem claras: um, antes de assistir à esse filme eu ouvi críticas excelentes dele que me deixaram automaticamente com a expectativa alta - o que pode ter sido um erro meu. Dois; não assisti o outro filme do diretor com o qual Midsommar é muito comparado, Hereditary, então a minha análise é de cabeça limpa pra comparativos. Tendo essas duas coisas em mente, vou tentar ser o mais direta possível sobre como, para mim, Midsommar é muito menos espetacular do que as pessoas estão convencidas.

Assumindo que quem continuou lendo até aqui já assistiu ao filme, vou direto às vias de fato. O primeiro problema do filme pra mim, é que a construção dos personagens apresenta várias falhas; enquanto Dani (Florence Pugh) e Josh (William Jackson Harper) levam o filme nas costas por serem as única personagem com uma construção decente, personalidades coerentes e boas motivações, o enredo também conta com Christian (Jack Raynor) cujo desempenho na história consegue ser ao mesmo tempo incompreensível e previsível, Pelle (Vilhelm Blomgren) que foi tristemente mal aproveitado, Mark (Will Poulter) que é um alívio cômico ruim e só pensa com o pau, o casal que literalmente foda-se porque eles brotaram na história e saíram dela quase que intocados pela trama principal, e a adolescente que precisava engravidar de alguém que não fosse sueco. Apesar de acreditar que o casting foi um trabalho bem feito por permitir que atores menos conhecidos brilhassem, ao mesmo tempo tem um problema de convencimento pro público. Jack Raynor e Will Poulter não parecem de forma alguma com mestrandos ou doutorandos, assemelhando-se muito mais com o núcleo de American Pie que acabou de entrar na faculdade.



Nada neles denota “antropólogo”. William Jackson e Vilhelm Blomgren saem na frente nesse quesito… Mas, como já disse antes, Pelle foi mal explorado. As intenções dele ficam dúbias. Ele é um amigo fura-olho e tinha interesse na Dani, ou é só alguém decente comparado com o Christian? Ele saiu da Suécia e foi até os Estados Unidos fazer um doutorado só pra achar gente pra sacrificar quando chegasse a hora do ritual bizarro de sua vila? Por que inseriram a informação de que os pais dele foram mortos em fogo, se não dá pra correlacionar com o ritual da vila, já que ele não estava vivo na data do festival anterior? Questões.


Midsommar foi feito pra ser assistidos com três olhos abertos e isso é um ponto forte. Muitas informações estão “escondidas à céu aberto entre as cenas da história” (o quadro de urso na casa da Dani? A bebida de cor diferente pra Christian? A primeira cena que é literalmente uma pintura que conta a história toda?). Mas, uma vez que você sabe disso, a trama fica imediatamente previsível, e o ritmo é tão lento que fica chato esperar pra ver o que você já sabe que vai acontecer.


Sobre o ritmo… Tá aí a coisa que mais me incomodou no filme inteiro, junto com a falta de progresso da história. Disseram que o filme não era cansativo porque tinham coisas acontecendo do início ao fim, mas é mentira. O começo é eletrizante, com toda a cena da Dani preocupada com a irmã, depois a morte da família, aí a cena simplesmente incrível da transição entre a porta do banheiro e a do avião. Até o momento da viagem de carro, o filme pontua sem defeitos.


Após a cena da estrada de cabeça pra baixo, no entanto, a ladeira desceu. Quando os viajantes chegam em Harga, a beleza do cenário e a fotografia me tiraram totalmente o fôlego… Mas todo o ritmo do filme morreu. Foi como ver um carro engasgar e não conseguir ligar de volta até os minutos finais de filme. Não me entendam mal; eu não estava esperando a ação de um jumpscare (que inclusive detesto!), mas as coisas passaram a acontecer tão devagar e tão sem sentido que eu não achei proveitosa a experiência.


Algumas cenas fariam mais sentido se estivéssemos acompanhando a história apenas do ponto de vista de Dani - o que não era o caso. Faria sentido que nós não soubéssemos o que houve em primeira mão com Connie e Simon já que ela não estava lá.
Mas ela também não estava no momento da morte de Josh, e nós vimos tudo. O filme te ensina uma fórmula que de interpretação que ele mesmo desensina depois. Também pudemos ver antes de Dani o Christian transando com a Maja, e todo o circuito de acontecimentos que o levou à isso.


Eu estou de boa com as cenas gore, que fizeram seu papel em agregar o impacto que o enredo pedia, mas me incomoda um pouco a falta de propósito. Por que Simon pendurado no galinheiro? Por que Mark sendo usado como máscara? Por que o urso??? Sinceramente até agora me perguntando por que CARALHOS o urso. Nada de respostas. Parece só mais um recurso visual que foi jogado ali porque ia ficar esteticamente legal e foda-se.


Ainda sobre falta de propósito… É isso. É esse o resumo, é o filme inteirinho. Se você olha pela perspectiva do crescimento pessoal da Dani, a história consegue uma nota 4 de 10. Porque a história simplesmente não é boa. A melhor de todas as interpretações que eu vi sobre o filme, é de que ele é um conto de fadas - o tipo original, contos sangrentos de fadas. Porque no fim do dia é a história da jovem órfã que surpassa suas provações e vira rainha - o que é ótimo! Mas não é isso que o filme vende. É terror.


Agora sobre coisas realmente incríveis. As transições e a fotografia, obviamente, brilharam. Sonorização impecável feita em crescendo e atingindo até a espinha nos momentos de suspense - especialmente a cena da garagem. A atuação de Florence Pugh. O cenário. E por último, a melhor cena do filme inteirinho (pra mim, né); os gritos em uníssono durante o ritual da Maja e o ataque de pânico da Dani. Não consigo descrever em palavras o quanto essa cena mexeu comigo, me arrepiou e trouxe lágrimas ao olhos. Achei lindo! De verdade, maravilhoso!


Pra finalizar, eu diria que o filme tem algumas coisas realmente muito boas, mas a grande maioria acaba sendo desperdício de tempo, infelizmente. Eu vejo em muitas das críticas a seguinte máxima: “Midsommar não é um filme, é uma experiência.”, mas é uma experiência de quê? O que está sendo experienciado? Por que o filme tem sido tão reverenciado?


Destrinchando:

Fotografia: 9
Sonorização: 9
Enredo: 4
Ritmo: 4
Comprometimento com o tema: 5
Casting: 7
Atuação: 7
Direção: 8
Transições: 9
Teste de Bechdel: Passou raspando! Mas passou. Agradeçam à Connie e seus cinco minutos de participação.

Nota final: 6,88 (de alguém que esperava um 9,0).
Recomendo: Pra quem quer assistir só com metade do cérebro ligado sem se importar com pontas soltas.



Estou de cabeça aberta pra quem discordar e quiser continuar num debate saudável sobre. Midsommar é superestimado, change my mind.

Originalmente publicado em Manifesto de Cheshire em outubro de 2019.

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